História e Cerveja, uma inspiração de sabores.


Existe uma pergunta que sempre ecoa pelas ladeiras do sítio histórico de Olinda, cidade de Pernambuco, tombada com o título de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Humanidade: “e se os holandeses tivessem permanecido no Brasil?” Qualquer resposta que se tente dar, seria ficção científica. Para a História, não existe especulações, nem realidades alternativas. O que importa é o que aconteceu. Concomitante a essas especulações, o fato é que até hoje os moradores da disputada cidade do passado permanecem com essa indagação.

Mas o que isso tem a ver com cerveja? Vamos lá.

O artista plástico Antonio Mendes, morador de Olinda, legítimo olindense (apesar de ter em seu registro de nascimento a naturalidade “Recife”, pelo simples acidente de percurso de ter nascido na vizinha cidade de Recife) é desses caras que traz essas inquietações sobre o fato de que nossa cidade poderia e deveria ter sido mais bem gerida. E vai além: afirma que os holandeses ao saírem de Olinda, enterraram várias caveiras de burro pela cidade alta, numa tentativa de explicar o porquê da cidade não deslanchar para um desenvolvimento típico de cidade européia. Seria uma espécie de “vingança holandesa”, uma maldição alograda pelos “galegos” por terem perdido a batalha e sido expulsos por El Rey lusitano. E o que vem a ser “caveira de burro”? Vou explicar. Caveira de burro insere-se numa lenda cultural, sobre aquele ponto da esquina, um local que já foi restaurante, lavanderia, padaria ou qualquer outro negócio e que nunca deu certo: “parece que tem uma cabeça de burro enterrada”. Um local “azarado”.

Eis que um dia, num desses carnavais olindenses, eu, ele e alguns outros amigos, nos convalescíamos do sobe e desce das ladeiras escaldantes e íngremes, nas sombras da mata atlântica remanescente do antigo Horto Del Rey de Olinda (1º Jardim botânico do Brasil e utilizado pela coroa portuguesa para aclimatação de espécies estrangeiras trazidas para a então capitania de Pernambuco). Ao nosso lado, um arbusto de “laranjinha do mato” com pequenos frutos maduros, de coloração vermelha, quieto, a testemunhar agradável e interessante conversa.

Já nessa época, morando no sítio histórico, não só me atrevia em brassagens de cervejas artesanais, como já nomeava de Velha Marim a cervejaria produtora do precioso líquido (para os que não sabem, um dos primeiros nomes da cidade de Olinda foi Marim dos Caetés em ressalva a tribo indígena que ali habitava nos idos de 1500). Pois bem, como não poderia deixar de ser, lá veio Antonio nos dizer que estava fazendo estudo para localizar onde os holandeses haviam enterrado as caveiras de burro. E foi além: já havia identificando alguns locais. Pronto. Foi o bastante para que, no assunto seguinte ao prólogo arqueológico da caveira animal (aniversário do dito cujo) me comprometesse a fazer uma cerveja especialmente para o seu aniversário. E pelo apreço ao digníssimo artista e em homenagem à nossa cidade, à nossa história e cultura, faria uma witbier refrescante. A fruta utilizada? Adivinhem? Laranjinha do Mato! E para melhorar ainda mais a homenagem, parti então para a escolha do nome que seria a primeira witbier da Velha Marim: Caveira de Burro Del Rey!

Não será difícil para vocês leitores, saberem então a cerveja que estou bebendo ao escrever este artigo.

Aqui a Caveira de Burro deu sorte.

Saúde!


* Os holandeses desembarcaram em 1630 em Pernambuco, que viveu sob domínio holandês de 1630 à -1654. As principais realizações em território brasileiro foram feitas pelo conde Maurício de Nassau que governou o Brasil de 1637 a 1644, como: a liberdade religiosa para católicos e judeus, as melhorias urbanísticas e paisagísticas, arquitetura, artes plásticas e ciência.

Por: Márcia Marcondes

ACADEMIA BARBANTE DE CERVEJA