Entrevista com René Aduan Jr, um dos brasileiros no júri do World Beer Cup 2016

Foto: Divulgação Brewers Association

O World Beer Cup, um dos principais e mais respeitados concursos de cervejas do mundo, foi realizado em 2016 na Filadélfia.

Das 6.592 inscrições de 58 países, 169 foram brasileiras, o quarto país com o maior número de inscrições.

13 brasileiros estiveram entre os 266 jurados dessa edição, entre eles René Aduan Jr. Que nos concedeu uma entrevista sobre a competição.

René Aduan Jr, Gastrônomo pela Universidade Anhembi Morumbi, Sommelier de cervejas pela Doemens além de técnico aplicado à micro cervejarias pela VLB- Berlin.

Trabalha na área da gastronomia há mais de 15 anos, com foco em engenharia de cardápio e harmonização. É dono e chef da Alma Rústica Gastronomia e professor da Academia Barbante de Cerveja.

Foto: Divulgação Brewers Association

Academia Barbante de Cerveja: O Brasil foi o 4º país que mais inscreveu cervejas, porém não recebeu nenhuma premiação nesse ano. Que análise podemos fazer disso?
René Aduan Jr: O nível técnico das cervejas no mundo vem sendo aprimorado a cada ano, o que é resultado de investimento em muito estudo, inovação e tecnologia.
O Brasil, apesar do número grande de cervejas enviadas, também esta em evolução dentro desse mercado e ainda tem o que caminhar em termos de qualidade e consistência. Vale lembrar que a história do Brasil é bastante recente quando falamos de craft beers.
Olhando a grande e qualificada concorrência, precisamos nos espelhar e subir mais um degrau, justamente o do estudo, da tecnologia e assim, da qualidade.

Quando falamos de estudo, na competição, um ponto chave é a competência técnica associada à fidelidade com o estilo julgado. Nesse aspecto, as cervejas que se dão melhor em um campeonato desse porte, são as cervejarias que fazem produtos extremamente balanceados e fieis ao estilo. O panorama do campeonato para o Brasil é um raio x que registra bem o nosso momento (e nossa história recente). Vale destacar que a Novo Brazil, fundada e administrada por brasileiros na Califórnia, ganhou uma medalha de bronze em um estilo tradicional e muito concorrido.


ABC: Qual foi o maior desafio em ser jurado no World Beer Cup 2016?
RAJ: Não é bem um desafio, somos preparados como juízes para julgar as cervejas dentro dos parâmetros estabelecidos para a competição. Os juízes são indicados e selecionados por sua competência técnica nos vários segmentos da cervejaria. O “peso” é o da responsabilidade de fazer o melhor trabalho, dando feedbacks assertivos, nas fichas de degustação, que contribuam para o crescimento das cervejarias.


ABC: Qual a imagem das cervejas brasileiras em uma competição internacional?
RAJ: A imagem me parece próxima do real, cervejarias em expansão e no inicio de uma história cervejeira.


ABC: O que você destacaria dentro dessa competição?
RAJ: Os números são impressionantes: 1905 cervejarias, 58 países, 6592 cervejas inscritas e 266 juízes de 32 países (75% de juízes não americanos). A organização impecável do BA (Brewers Association), o alto nível técnico do corpo de jurados e o alto nível das cervejas também merecem consideração. A grande surpresa ficou com os asiáticos, destacando-se o Japão, que ganhou um número expressivo de medalhas.


ABC: Podemos observar alguma tendência mundial em produção de cervejas, seja em estilos ou mesmo em escolas cervejeiras?
RAJ: O que me chamou atenção nessa competição foi o numero de cervejas inscritas nos novos estilos do guia. Na minha opinião, isso aponta a tendência de sair dos estilos clássicos, ou seja, cervejarias buscando estilos menos usuais. O que é muito bom, isso dá a diversidade que nós profissionais da área e consumidores queremos.


ABC: Qual a sua expectativa para os próximos eventos?
RAJ: Minha expectativa é de cada vez mais cervejarias brasileiras participando e aproveitando bem os feedbacks e, por consequência, aprimoramento e medalhas para nossas cervejas!


ABC: Gostaria de deixar algum recado para as cervejarias brasileiras que participaram?
RAJ: Competição é isso ai. É onde você se coloca para poder se comparar com os melhores. As cervejarias que mandaram suas amostras estão de parabéns, mostram que querem se aprimorar e crescer.

Vale lembrar que uma competição registra o momento da cervejaria no mercado, não significa que a cervejaria e, claro, a cerveja medalhada é a “melhor do mundo” por período indeterminado.

Se não tivemos um bom resultado, temos que trabalhar mais para obter esse resultado na próxima competição, com objetivos claros. Vale muito estudo (temos cada vez mais cursos disponíveis no país) e uma analise aprofundada dos feedbacks recebidos, com olhar profissional.

Competição não é só medalha, é onde você se abre para ouvir opinião dos experts e assim, aprimorar seu produto. Bola para frente!

ACADEMIA BARBANTE DE CERVEJA